Cauê Alves - O perfume de um corpo cindido
01/01/2007
Os frascos de vidro de Nazareth Pacheco, protegidos por uma caixa de acrílico, bem que poderiam conter algum sofisticado perfume. Em pequenos recipientes como esses, tradicionalmente, são conservadas fragrâncias preciosas. Mas neles a artista colocou sangue de seu próprio corpo. O sangue é uma substância que tem sentido ambíguo. Sua presença pode indicar ferimento, mas também a cura. De todo modo ele é valioso, tanto é assim que costuma ser armazenado em bancos de sangue para possíveis transfusões. Não por acaso, durante sua exposição na Casa Triângulo em 2007, Nazareth Pacheco fez uma parceria com a Associação da Medula Óssea [AMEO] para selecionar possíveis doadores de medula, um tecido que fica no interior do osso e que produz as células sanguíneas: glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e plaquetas. Embora o sangue não possa ter valor comercial, seu valor de uso, ou seja, seu aspecto vital é inestimável.
Nazareth Pacheco, além de exibir seu próprio sangue, produziu fotografias sedutoras do frasco de vidro que o contém, utilizando-se de recursos de fascinação que algumas mercadorias provocam sobre nós. Desde seus trabalhos em bijuterias feitos com cristais, agulhas, lâminas, miçangas e anzóis, todos em caixas transparentes, havia o estímulo ao consumo, o desejo, e também a sua proibição, a repulsão pelo corpo. As aparências artificiais tecnicamente produzidas das fotografias do frasco, como luz, brilho e acabamento, também se valem do fetichismo que seu trabalho anterior já tratava. A diferença é que em sua produção recente a imagem passou a ser tão importante ou mais do que os objetos, como de fato a imagem é em quase todos os campos da vida.
Não se trata de optar entre as imagens e os objetos, tanto que a artista faz desenhos com sangue e fotos dos mesmos desenhos antes que o papel o absorva, mas de reconhecer que a estética dos objetos é ao menos tão relevante no nosso imaginário quanto suas funções. É nesse sentido que é possível compreender a gigante gota em acrílico vermelho e as esculturas posteriores, de 2009, em formas de hemácias: glóbulos vermelhos presente no sangue e responsáveis pelo transporte do oxigênio e do dióxido de carbono em nosso corpo. Obviamente as 100 gotas de acrílico e os glóbulos vermelhos criados pela artista em bronze, madeira e cera não têm funcionalidade. Mas eles são tão bem projetados, atraentes e sedutores como alguns objetos de design.
Na mesma exposição na Casa Triângulo, Nazareth Pacheco mostrou um espelho de corpo inteiro com a moldura em acrílico vermelho. O padrão de pequenas pirâmides pontiagudas, chamado de lapidação bico-de-jaca, retoma de modo mais brando a agressividade das bijuterias e vestimentas que realizou no final dos anos de 1990. O encosto e o assento da cadeira, colocada em frente ao espelho, possuem o mesmo padrão.
O espelho é um objeto exterior ao nosso corpo que misteriosamente pode nos revelar quem somos e até mesmo o nosso próprio interior. São recorrentes no nosso imaginário histórias em que o espelho tem poderes mágicos de visão e previsão. A imagem do espelho, aquela que nos contempla quando estamos diante dele, é a nossa imagem completa. Ela revela uma espécie de concordância do corpo consigo mesmo, com as coisas e com os outros corpos. Entretanto, os vestígios do corpo nos desenhos de Nazareth Pacheco, o sangue e as gotas presentes em sua exposição, mostram um corpo cindido, fragmentado. É como se houvesse uma espécie de desarmonia corporal. Mas não se trata apenas de uma concepção individual de adequação a algum padrão de beleza, mas sim da constatação do desaparecimento da noção de um sujeito como corpo onipresente e absoluto, definido a partir da oposição com os objetos do mundo. Isto está longe de ser um retorno à concepção cartesiana do sujeito como cogito, como puro pensamento desencarnado, mas sim de que o corpo já não é mais uma unidade. O trabalho de Nazareth Pacheco, para além das explicações biográficas que possa ter, nos mostra que o corpo contemporâneo perdeu a sua inteireza e singularidade e que nem a arte nem o desejo poderão forjar sua reunificação. Talvez por isso a artista investigue o líquido vital que constitui o corpo e a sua origem.
O uso do sangue como matéria da arte tem uma longa história. O mais célebre e recente exemplo talvez seja a cabeça de Marc Quinn moldada com sangue congelado. Mas nela ainda havia uma figura, uma imagem que era a identidade de um sujeito, a cabeça como a “casa da alma”. Seu retrato é como um espelho, cuja imagem unifica o artista e o modelo. É como se o próprio busto fosse um sujeito composto da mesma substância que seu autor.
Mas em Nazareth Pacheco a forma que o sangue tem não é a de seu rosto nem a de sujeito algum. É a forma básica da gota e da hemácia, uma forma universal e totalmente de-subjetivada, pronta para integrar um banco de sangue. A matéria sangue, depois de retirada do corpo não tem mais dono e pode correr nas veias de outros corpos que dele necessitam. Longe de representar algum elogio à atitude científica que trata o mundo como um mero objeto predestinado aos seus experimentos, Nazareth Pacheco nos revela que esse sujeito moderno, que pensou poder sobrevoar o mundo e dominá-lo completamente pelo pensamento, habita hoje um corpo esfacelado e sem identificação.