Agnaldo Farias - Clareiras
01/02/2010

Antes de falar da obra de José Spaniol, a que ele cravou no pequeno lago do Parque Burle Marx, falemos de São Paulo que, como em tantas metrópoles, os bosques, praças e parques compôem as magras clareiras verdes ligadas umas as outras pelas trilhas descontínuas de árvores que margeiam calçadas e ruas, derramando-lhes um pouco de sombra e puxando os olhares para cima, em direção ao céu que limitam e estreitam. Essas clareiras criadas e salvaguardadas por divisões de parques e jardins de secretarias de Meio Ambiente, ou seja lá que nome tenha nas diferentes cidades do mundo e que nelas encontra o quixotesco movimento de reação à progressiva destituição de ar e água puros, traem a nostalgia de uma natureza cada vez mais afastada, acessível através de pacotes de viagem anunciados em impressos aliciantes, a promessa de utopias silenciosas e edênicas, a sugestão de que em algum lugar haja silêncio e sol. Nessas clareiras a natureza vem enxertada em conjuntos vegetais contabilizados segundo as taxonomias botânicas e em formatos elaborados em obediência as vertentes paisagísticas que no Brasil encontrou seu ponto culminante justamente em Roberto Burle Marx. É certo que um ou outro enclave é anunciado como uma legítima reserva da floresta, mata nativa. Um extertor, uma sobra produzida antes pelo descuido ou inapetência da especulação imobiliária do que por instinto preservacionista, porque este, como se sabe, tem origens no altruísmo, sentimento que a canalha da fauna incorporadora, que é sua maior parte, exclusivamente interessada em si mesma, ignora com ostentação e arrogância. Mas mesmo essas parcas sobras são retificadas para conforto da população.

Assim desvendada e regulada a natureza retorna e esplende, abre-se ao público cada vez maior e mais ávido que, armado de agasalhos ou, os mais atilados, de short, regata e tênis, escorre por entre os caminhos recobertos de cascalhos projetados para serem tortuosos, como obras do acaso, contornando árvores, acompanhando a curva dos terrenos, beirando lagos, serpenteando de modo a inventar quilômetros num sítio condensado, paisagem caleidoscópica, até desembocar nas paragens dotadas de bebedouros, bancos e banheiros, onde enfim se pode repousar da fadiga resultante de exercícios consagrados ao exercício, à estética do cansaço.

Mas a natureza não está só para isso. Com seus musgos, terra úmida, arbustos e touceiras soando e balançando em cadências lentas e desencontradas, ela vai facilmente se impondo aquele que caminha sozinho ou àqueles que silenciam quando o passeio atinge fôros de uma marcha. Aí o corpo sente a troca de pele das árvores, a queda das folhas, o renque de troncos que se fecham em situações secretas, a sucção das parasitas coleadas, o apodrecimento geral tão visível, seu cheiro doce e entontecedor, tudo somado à promiscuidade e repugnância dos insetos entocados no chão, trabalhando dia e noite sem que se saiba para quê, o tramado de uma revolução parcialmente realizada à nossa vista; os motores distintos dos que voejam intermitentemente, a voracidade daqueles que atrevidamente se alimentam da pele suada, grudando-se, fazendo com que nos estapeemos, elevando o calor e a vermelhidão da região picada, tudo faz crer que se está no interior de um outro mundo, estranho, assustador, maravilhoso.

De posse do parque recentemente inaugurado, José Spaniol funda / fundeia no lago, uma clareira dentro da clareira, seu "Descanso da sala". Um conjunto de objetos domésticos - cama, cadeira, mesa, escada -, de pernas para o ar, depositada no céu, disputando espaço com as copas das árvores que o rodeia e que o passante distraidamente percebe como imagem refletida na superfície líquida somente perturbada por ondulações sutis, os ecos misteriosos da vida submarina, pelo vento insetos pássaros e detritos orgânicos que adejam e flutuam na matéria macia do espelho.

José Spaniol não é o primeiro a perceber que os objetos descansam, que possivelmente sonham e que o convívio continuado com eles leva-nos a delirar. Para não recuar muito, basta lembrar da importância dos objetos, receptáculos de segredos, em textos como "Amor", de Clarice Lispector, cuja protagonista, Ana, nome/palíndromo como a própria ordem das coisas, que horas antes entrara no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, onde, sentada num banco, "adormecendo dentro de si", percebera-se rodeada por "ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós", ao entardecer, vê-se ameaçada pelos objetos e suas sombras alongadas, os mesmos que de manhã regressariam da madrugada dóceis e empoeirados, como que arrependidos.

O que sonham os objetos? Sabe-se pouco disso, embora seja possível conjecturar que sonham ser outras coisas, assumir outras configurações, quem sabe uma vida mais agitada ou pelo menos livre de nós.

Antes de prosseguir convém destacar que essa fantasia animista procede. Afinal, os objetos são feitos por nós e para nós. Têm a nossa medida, a curvatura do nosso corpo, adequam-se à altura dele sentado, até o tamanho do pé. Acomodamo-nos neles a ponto de, no melhor dos casos, confundirmo-nos com eles. Não é mesmo assim? Não reagimos com irritação quando nos querem retirar do aconchego da cama, o encaixe exato da cabeça no travesseiro?

Essa cumplicidade, essa compreensão do corpo à conformação do objeto é a prova de uma relação baseada na reciprocidade: estamos nos objetos como eles em nós. Temos um pouco deles introjetados, como eles têm muito de nós. Então por que não algumas das emoções e sentimentos? Ou não existem facas e tesouras mal intencionadas, poltronas protetoras, mesas solidárias? Como há também sinfonia desencontrada e ininterrupta de estalos, rangidos, baques, chiados, além do surdo e inquietante tic-tac do relógio e o ruído rascante de metais atritando-se na chave que gira na fechadura.

Há de tudo numa casa, em todas as casas e ambientes que frequentamos. E há a possibilidade de que os objetos se cansem disso tudo. Pois afora a serventia que os justifica e consagra, aquela a qual damos o nome de "utilidade", há também a simples função de estar aí, a função dissimulada mas igualmente eficaz de barrar nossos passos, criar obstáculos, aquilo que Vilém Flusser chamava de "perfídia dos objetos". Eles estão em todos os lugares, lembrando-nos, a partir de encontrões ocorridos ou evitados, da sua presença ao mesmo tempo que da nossa própria. É comum a queda abrupta dos cimos dos nossos devaneios, o tapa seco que a realidade, quase sempre pela via do objeto, de um esbarrão à porta que bate inopinadamente, insiste em desferir cada vez que nos alheamos dela. Ah, o que podem os objetos...

Mas os objetos de José Spaniol, esclareça-se, não estão sonhando. Neles não há vestigios de deformação ou de uma roupagem insólita, como os objetos das pinturas de Dali, a xícara peluda de Meret Oppenheim. Nessa linhagem Rene Magrite, esse mestre na perturbação do vocabulário imagético naturalista mais ordinário, parece ser seu parente mais próximo. Deles pode-se então dizer que estão literalmente em suspensão, submersos no sono, esse estado, no dizer de João Cabral de Melo Neto, que é "um poço em que mergulhamos, em que estamos ausentes".

No jardim que leva o nome de Burle Marx, o poço é um lago, e é para lá que o artista transfere sua sala, o símbolo do lar, para o coração da clareira vegetal, o lago desenhado por um paisagista, nem por isso menos lago. E é nesse chão cediço que irrompe as arestas de uma sala invertida com seus objetos. No meio da fenda verde, tão projetada quanto os prédios e avenidas que a contornam, o enigma resiste, surpreende e encanta por sua aparição bifurcada, sala e parque, advertindo-nos que ele está em toda parte.

Agnaldo Farias



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