José Spaniol - O Descanso da Sala
01/02/2010

No meio das árvores, a uma altura de aproximadamente 8 metros, vemos o que seria uma sala ou um quarto de cabeça para baixo. Uma estrutura de ferro sustenta o conjunto: uma cama, uma mesa, uma escada e duas cadeiras. Fixados no topo dessa armação, os objetos são refletidos sobre um espelho d`água, projetados contra a copa das árvores e o céu. Mediante esse artifício, recuperam sua posição natural. Um visitante andando pelas alamedas do bosque decerto não perceberia os objetos no alto da copa das árvores. Entraria em contato com o trabalho ao olhar para a superfície da água, e em seguida poderia ser surpreendido pela imagem de uma sala flutuando entre as árvores e contra o céu. Ao olhar para o alto, perceberia objetos comuns pendurados junto às árvores, no meio da clareira. Poderiam fazer parte da rotina de qualquer casa, inseridos no seu ambiente. Contudo, só podemos vê-los a partir de um ponto de vista improvável. Podemos observá-los no alto, invertidos, como se o mundo tivesse perdido a normalidade, ou na imagem refletida na água, quando a sala volta a colocar-se na sua posição habitual, mas flutuando contra o céu, ainda assim longe de seu cotidiano. O trabalho estrutura-se por esse eixo entre terra e céu, em um movimento vertical de aproximação entre opostos. Como em uma ascensão, os objetos abandonam suas funções e se projetam para outro plano.

Os espelhos sempre estiveram presentes no meu trabalho, são planos e orientados às vezes através de eixos verticais ou horizontais – e em cada caso os resultados são completamente diferentes. "Espelhos horizontais" reúnem conteúdos como reverberação e equilíbrio; "Espelhos verticais" estão ligados ao tema da ascensão, da queda.

Os espelhos horizontais estão sempre em um eixo frontal ao nosso, à altura de nossos olhos. Nesse plano, nos situam no espaço por uma lei de continuidade. Tornam-se um instrumento de extensão da nossa visão, potencializam o alcance de nosso olhar, multiplicando o nosso ponto de vista. O reflexo cria para os olhos algo semelhante ao que a reverberação cria para os ouvidos. Somos duplicados, cada um de nós se vê como se fôssemos outro, como os outros nos veem. Esse confronto amplo nos oferece mais uma referência sobre nosso próprio entendimento. Por meio dele, cria-se a possibilidade de reconhecimento de nossa imagem: identificamos e relacionamos o que vemos como nossa identidade. Este eixo nos coloca em movimento, permitindo que caminhemos no espaço. Através dele, é possível procurar, localizar, verificar. O reflexo, neste caso, estabelece uma relação de equilíbrio, entendido como uma medida de proporção: o que se vê no espelho corresponde a nós e ao que está ao nosso redor.

Por outro lado, quando estão dispostos no chão, abaixo da linha de nossos olhos, os espelhos nos impõem a verticalidade. Neste eixo, estão as pinturas ascensionais, de cúpulas de igrejas e dos tetos dos palácios. Elas nos colocam diante do improvável, do que é desestabilizador. A imagem com a qual nos deparamos não faz parte do cotidiano. Guiado por esse ponto de vista intangível, não se verifica coisa alguma, não se estabelecem provas. Não nos vemos nem nos localizamos nesse plano incomensurável; pois, como a continuidade do espaço é relativa, não é possível precisar onde se está. Com frequência, essa perspectiva é aérea, não se define por aspectos fixos; diante deles também flutuamos. Espelhos verticais são vertiginosos, enfraquecem as medidas, dissolvem os limites. Promovem uma instabilidade delicada, quase um desconforto.

Diante de um espelho no eixo frontal, esperamos por identificação, por reconhecimento, por uma reafirmação do nosso mundo palpável. Mas, quando o espelho está no eixo vertical, quando está em um nível abaixo de nossos olhos, deparamo-nos com a instabilidade, com limites fragilizados pela falta de referências claras.



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