Paulo Reis - texto do livro Jose Spaniol
01/01/2010

O artista José Spaniol tem construído as suas obras no limite possível da experiência. Ao conjugar a instalação, a escultura, o desenho e a arquitetura, o artista cria obras de intensa carga fenomenológica. Ao utilizar materiais pouco usuais como a areia, a argila e a cera ao lado de meios tradicionais como a escultura em madeira, pedra ou metal, suas instalações combinam objetos, arquitetura e textos – literários, filosóficos, enciclopédicos ou de frase retiradas da toponímia das grandes cidades. A obra do artista apela para a fenomenologia do olhar, requerendo do espectador a sua experiência e a sua vivência, para que a fruição estética provenha desse encontro. Penso ser possível dividir a obra do artista José Spaniol em duas partes, distintas formalmente, mas coesas conceitualmente. Na primeira, temos as esculturas e os objetos focados num universo magrittiano, feito sobre o jogo ilusório das realidades aparentes. Nesse universo mágico, cadeiras, mesas, escadas, camas e objetos do cotidiano são deslocados de sua funcionalidade, duplicados na sua forma, geram uma nova forma de abordagem ao transitarem entre o object trouvé e o ready-made modificado. A casa e o bosque é uma dos melhores exemplos desse universo onírico e fantasioso.

Mais recentemente, José Spaniol vem se aventurando por construir instalações que desafiam o espectador a encontrar novos significados para significantes desgastados. Na exposição "Duplicadores", realizada no ano passado no Carpe Diem Arte e Pesquisa, em Lisboa, o artista apresentou as instalações Céu e Inferno, acompanhadas de um conjunto de dez desenhos em tinta da china sobre papel, quatro desenhos em tinta da china sobre ardósia e duas esculturas em ardósia. Nessa mostra, cujo título já indicava, Spaniol trabalhava com a inversão dos sentidos das imagens – quer dizer, dos significantes das palavras céu e inferno. O seu céu coloca-se no nível do chão e o seu inferno na parte superior. Mas magrittiano impossível, o céu e o inferno de José Spaniol são feitos de varetas desgastadas pelo tempo, que sustentam placas coloridas – azul-celeste e vermelho sangue – que representam esses espaços metafísicos. Todo o universo de José Spaniol apela para um ascendência magrittiana tanto nos materiais quanto na forma de lidar com as relações de significante e significado, quando deliberadamente enfatiza a natureza social dos sistemas de signos. Ao inverter os sentidos das duas linhas da vida – a vertical, que representa ascensão, e a horizontal, a linha da vida que somos obrigados a percorrer –, o artista inverteu a localização dos significados de céu e inferno, confundindo de uma forma ardilosa os pecadores e os santos, pois Ceci n’est pas une pipe. (1)

Num segundo momento, sua obra apela para reminescências da land art, sobretudo nas instalações como Mirante e Tímpano, requerendo do espectador a sua participação efetiva e não mais sugerida. Nessas obras José Spaniol evoca os antepassados dessa corrente artística. Primeiramente as experiências dos artistas japoneses como Isamu Noguchi, exatamente no seu Playground and playmountains (1940). A land art vive de obras de grandes dimensões, como as monumentais intervenções nas paisagens – Landscapes e Cityscapes – de Christo e Jeanne-Claude, os labirintos de Dan Graham e as espirais de Robert Smithson, estruturas comparadas ao Lightning field de Walter de Maria, a obra de arte mais arriscada e mais ambiciosa da land art. A composição modelar e geométrica das esculturas iniciais de Robert Smithson apresentam-no como um minimalista, mas as suas instalações – feitas de estruturas naturais como sal, areia, água, pedras, cristais, etc. – indicam uma preocupação e uma conexão entre natureza e ambiente, vinculadas ao conceito físico da entropia.

Para a arte contemporânea, a relação do homem com a natureza e a relação do homem com o trabalho são questões insolúveis da propalada "volta às origens" como se isso fosse possível para o homo culturalis. Nesse aspecto, as esculturas pós-modernas da land art, da povera, da environment art, todas pertencentes à categoria sensorial e afetiva com a natureza, possibilitaram aos artistas um contato direto e artesanal com a matéria. Contudo, esses artistas modernos ligados à estética da natureza impuseram sua crítica ao modo como o homem construiu uma civilização destruidora de seu maior bem natural. A importância do espaço vivido – simbólico quando falamos do self; real, quando falamos da terra – é de onde provém a energia de tudo que é constituído. Para o bem e para o mal da arte, o esforço renovador do minimalismo representou sua incapacidade de reconhecimento do corpo humano no espaço da arte, daí o desdobramento consequente de artistas como Michael Heizer e Robert Smithson em retomar a ligação entre arte e espaço vivido, arte-vida. Heiger, ao se apropriar de um pedaço de terra no deserto de Nevada (Duplo negativo, 1969), e Smithson, do Grande Lago Salgado de Utah (Quebra-mar espiral, 1970), retomam o conceito fenomenológico da Poética do espaço. Ideia de tempo e de passagem é uma preocupação da escultura moderna, como ressalta Krauss, porém nos artistas da land art e environment art ganham status de obsessão, possibilitando que a escultura de objeto estático e idealizado se torne um objeto temporal e material, fenomenológico em sua atuação, porém não perene na ação. É dessa natureza – e também das motivações de Joseph Beuys, que José Spaniol irá trabalhar com materiais orgânicos (cera e mel de abelha, argila e areia, água e pós-variados) para a feitura das suas obras.

Penso que a postura de José Spaniol ao criar seu Mirante e seu Tímpano venha carregada da mesma entropia que mobilizou os artistas da land art. O crítico Alberto Tassinari diz que o "Mirante, de 1997, é talvez a mais bela obra de José Spaniol. Quatro paredes altas de taipa, dispostas numa planta quadrada, dão acesso a seu interior por meio de frestas em cada um de seus cantos. A construção não tem teto, e as paredes, desse modo, foram liberadas da função de sustentação. Possuem apenas a função de separar o espaço, seu dentro e seu fora. E é bem um contraponto entre estar dentro e estar fora que a obra oferece. Vista do exterior, a construção tem o aspecto sólido de um volume cúbico de barro. Já dentro do espaço delimitado pelas paredes, entretanto, está-se muito mais a céu aberto do que era de se esperar pela visão de fora. Conforme a hora do dia, o sombreamento do chão e das paredes variam. Tudo se passa como se estivéssemos dentro de algo como um relógio de sol. Mas dado que a obra se chama Mirante, cabe perguntar o que é que ela permite olhar. Em duas das paredes, há pequenos buracos quadrados que nos permitem olhar para fora. O que vemos, porém, não é distinto do que podemos ver através das frestas pelas quais se adentra a construção. Além disso, diferente de um Mirante usual, este se encontra numa paisagem plana. Como em muitas obras de Klee, o Mirante de José Spaniol encarna uma geometria ao mesmo tempo lírica e irônica. Nada miramos, afinal, a não ser o céu, o Sol e suas inflexões sobre o barro das paredes e as distâncias que sentimos".(2)

Com Mirante, Nelson Brissac Peixoto notou que "o artista tem se aventurado a construir suas obras no limite possível da experiência, pois suas ‘construções’ em taipa, processo primitivo de moradia, requerem que o espectador experimente o trabalho – como habitamos no interior do nosso corpo. E isso tem sido sua assinatura. Neste novo trabalho, o artista apresenta um texto estampado em baixo-relevo sobre uma parede de argila. O mesmo texto está invertido no chão através de letras fundidas em parafina, como se fosse um espelho de água, contendo nomes de alimentos escritos em árabe. Assim, Spaniol nos remete à primeira providência do homem em relação a sua perpetuação diante da natureza: cuidar da moradia e da alimentação". Kant justificou que a única maneira de o homem se sobrepor à natureza foi através da cultura, daí a necessidade de sistematização do pensamento sair da esfera empírica para a fenomenológica. Ao retomar a taipa, o artista faz com que tudo pareça mais antigo do que realmente é, leva-nos de volta ao passado, à origem do homem, pois, segundo a Bíblia, o gênesis se deu naquela região. A obra então resgata todo o trabalho que ali aconteceu, o esforço de gerações, semeado naquela terra [...] Esses procedimentos arcaicos parecem remeter a uma pré-história, a experiências imemoriais, a construções que se erguem ali para sempre. A terra vermelha, saindo das profundezas, tem o tempo da cidade, ressalta, o filósofo Nelson Brissac Peixoto.(3)

Também o seu Tímpano, uma estrutura circular que evoca tanto os labirínticos espaços de Dam Graham quanto as depressões de Heizer, está diretamente associada ao seu Mirante ao colocar o espectador no centro dessa experiência fenomenológica. A obra é feita de uma grande parede circular que deixa espaço apenas para um corpo atravessar sua fenda e chegar ao seu centro. No interior dessa paisagem – fechada em si mesma –, na solidão da sua experiência, o espectador dá-se no papel de Teseu e de Minotauro ao mesmo tempo, fruto do uso do reflexivo material orgânico empregado, a taipa batida acaba por transformar-se numa superfície lisa e espelhada que pode ser lida na forma côncava ou convexa dependendo do ponto de vista de onde se esteja. O Tímpano de José Spaniol – tal seu Mirante – une as duas vertentes apontadas no começo deste texto, evocando tanto uma obra da land art quanto um ready-made.(4)

Nessa nossa observação sobre mundo e criação, podemos recorrer às palavras do cientista-artista, Albert Einstein, que nos alertou que onde o mundo deixa de ser o palco-cênico de nossas esperanças e de nossos desejos, para tornar-se objeto da livre curiosidade e da contemplação, aí começam a arte e a ciência. Se procurarmos descrever nossas experiências no interior dos esquemas da lógica, entramos no mundo da ciência; se, ao contrário, as relações que intercorrem entre as formas de nossa representação fogem à compreensão racional e, no entanto, manifestam intuitivamente o seu significado, entramos no mundo da criação artística. O que aproxima os dois mundos é aspiração a algo não-arbitrário e universal. (5)

Concluindo, José Spaniol parte das experiências adquiridas na modernidade – Magritte, Duchamp e o dadaísmo – e da pós-modernidade – minimalismo e land art – para construir uma obra atual, vocacionada para o diálogo permanente com o espectador, evocando sua participação, ao mesmo tempo em que denuncia a ambiguidade dos signos e dos significados, numa polissêmica leitura das palavras e das coisas.

PAULO REIS

1 - Paulo Reis. "Duplicadores". Texto de folha de sala Carpe Diem Arte e Pesquisa, Lisboa, 2009.
2 - Alberto Tassinari.
3 - Nelson Brissac Peixoto. Arte Cidade.
4 - Paulo Reis em folder da exposição "Timpano", Capela do Morumbi, 2009.
5 - Albert Einstein citado por Achille Bonito Oliva. A arte até o ano 2000. (Tradução de Leonor Amarante). Milão: Torcular SpA, 1998.



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