Paulo Reis - Tímpano
01/01/2009



Penso ser possível dividir a obra do artista José Spaniol em duas partes, distintas formalmente, mas coesas conceitualmente. Na primeira, temos as esculturas e os objetos focados num "magrittiano" jogo ilusório das realidades aparentes. Falo das cadeiras, mesas, escadas, camas e objetos do cotidiano deslocados de sua funcionalidade, a transitar entre o object trouvé e o readymade modificado. Mesmo as instalações site specific como A Casa e o Bosque mantém sua matriz neste universo onírico e fantasioso que não requer a experiência participativa direta do espectador. Na segunda parte, localizada nas instalações como Mirante e Tímpano, sua obra está mais próxima da postura dos artistas da land art, requerendo do espectador a sua participação. É nestas obras que José Spaniol evoca os antepassados desta corrente artística. Nunca é demais recordar que a inspiração para a formação da arte da terra está nos monumentos naturais de Stonehenge e da Ilha da Páscoa, por exemplo. No século XX, seguramente as primeiras obras que podemos chamar de land art são experiências dos artistas japoneses como Isamu Noguchi, exatamente no seu Playground and Playmountains (1940). A land art vive de obras de grandes dimensões, como as monumentais intervenções nas paisagens - Landscape e Cityscape - de Christo e Jeanne-Claude, os labirintos de Dan Graham e as espirais de Robert Smithson, estruturas comparadas aos Lightning Field de Walter de Maria, a obra de arte mais arriscada e mais ambiciosa da land art. A composição modelar e geométrica das esculturas iniciais de Robert Smithson apresentam-no como um minimalista, mas as suas instalações – feitas de estruturas naturais como sal, areia, água, pedras, cristais, etc… indicam uma preocupação e uma conexão entre natureza e ambiente, vinculadas ao conceito físico da entropia.

Esta entropia é sobretudo evocada por Michael Heizer, o grande impulsionador da land art ao expor o espaço e os antagonismos sociais como força motriz das experiências temporais no deserto. Para o artista, a arte deveria ser vista de uma forma não conformista, com a ativação permanente da fisicalidade do espaço. O seu trabalho com a paisagem começa em 1967, quando afunda um cubo aberto no solo do Nevada, o primeiro elemento de uma escultura projetada com quatro partes, i.e. os quatro pontos cardeais, ao qual intitularia de NESW. Em abril de 1968, o artista trabalha com Walter de Maria numa obra composta de duas linhas paralelas no deserto Mojave, na Califórnia. Nesse mesmo ano, Smithson e Nancy Holt juntam-se a Heizer para trabalhar na peça Nine Nevada Depressions, também realizada no deserto de Nevada. Em 1969, realiza outra ação, Displaced – Replaced Mass, onde caminhões transportam da serra para o deserto de Nevada enormes blocos de granito colocando-os em depressões no solo. Nesta obra, estes fazem alusão à época egípcia, com a mudança dos monolíticos que formaram o Colosso de Memnon, no Vale dos Reis. Em 1969, retorna ao Nevada onde utiliza máquinas escavadoras e dá inicio ao seu Double Negative, uma obra feita de dois cortes na montanha Mormon Mesa. De frente um para o outro, separados por uma profunda vala escarpada, Heizer escavou cerca de 220.000 toneladas de terra para realizar estes dois cortes. Double Negative foi uma obra que mudou a forma de fazer arte, tal como sua outra obra Complex One (1972/76), localizado também no Nevada, que consistia numa colina artificial, em forma de pirâmide alongada, construída com terra proveniente de um local próximo e suportada por uma estrutura de aço e cimento. A intenção de Heizer não se baseava na irreverência gratuita, quando afirmava que não queria destruir nenhum sistema de galerias ou de objeto estético, mas queria realizar trabalhos efêmeros que evocassem o passado do homem e da arte. Penso que a postura de José Spaniol ao criar seu Mirante e seu Tímpano venha carregada do mesmo entropismo que mobilizou a Michael Heizer. Como bem nos lembrou Alberto Tassinari, "Mirante, de 1997, é talvez a mais bela obra de José Spaniol. Quatro paredes altas de taipa, dispostas numa planta quadrada, dão acesso a seu interior por meio de frestas em cada um de seus cantos. A construção não tem teto e as paredes, deste modo, foram liberadas da função de sustentação. Possuem apenas a função de separar o espaço, seu dentro e seu fora. E é bem um contraponto entre estar dentro e estar fora que a obra oferece. Vista do exterior, a construção tem o aspecto sólido de um volume cúbico de barro. Já dentro do espaço delimitado pelas paredes, entretanto, está-se muito mais a céu aberto do que era de se esperar pela visão de fora. Conforme a hora do dia, o sombreamento do chão e das paredes variam. Tudo se passa como se estivéssemos dentro de algo como um relógio de sol. Mas dado que a obra se chama Mirante, cabe perguntar o que é que ela permite olhar. Em duas das paredes, há pequenos buracos quadrados que nos permitem olhar para fora. O que vemos, porém, não é distinto do que podemos ver através das frestas pelas quais se adentra a construção. Além disso, diferente de um mirante usual, este se encontra numa paisagem plana. Como em muitas obras de Klee, o Mirante de José Spaniol encarna uma geometria ao mesmo tempo lírica e irônica. Nada miramos, afinal, a não ser o céu, o sol e suas inflexões sobre o barro das paredes e as distâncias que sentimos".

Também o seu Tímpano, uma estrutura circular que evoca tanto os labirínticos espaços de Dan Graham quanto as depressões de Heizer, está diretamente associada ao seu Mirante ao colocar o espectador no centro desta experiência fenomenológica. A obra é feita de uma grande parede circular que deixa espaço apenas para um corpo atravessar sua fenda e chegar ao seu centro. No interior desta paisagem - fechada em si mesmo -, na solidão da sua experiência, o espectador dá-se no papel de Teseu e de Minotauro ao mesmo tempo, fruto do uso do reflexivo material orgânico empregado, a taipa batida acaba por transformar-se numa superfície lisa e espelhada que pode ser lida na forma côncava ou convexa dependo do ponto de vista de onde se esteja. O Tímpano de José Spaniol – tal seu Mirante – une as duas vertentes apontadas no começo deste texto, evocando tanto uma obra da land art quanto um readymade.

Paulo Reis
Lisboa, junho de 2009



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